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Espaço de reflexão Hermógenes de Castro e Mello

Dança dos cristais - a insistência em crer que podemos melhorar

Por Luiza Bussius, de Serra Grande, Bahia.

Passei por tonturas que só havia experimentado quando entorpecida de álcool. Aquela sensação ao deitar depois de uma farra, em que finalmente encerramos a esbórnia e olhamos para o teto e percebe-se que ele gira, gira e gira. Recomenda-se colocar o pé no chão pra garantir que não estamos, nós, rodando. Pois bem, tive minha primeira tontura dos cristais e esses giros de teto não foram por substâncias alucinógenas dessa vez. Tive a vertigem posicional paroxística benigna (VPPB), também chamada de doença dos cristais soltos. Não consigo não rir ao ler essas palavras.

Que complexos somos nós humanos. 

Confesso que primeiramente nem penso na vasta trama de emoções e pensamentos que temos em um dia, mas na engenhosidade do nosso corpo biológico. Sabia um pouco sobre as estruturas dos ouvidos, mas muito menos do que a doutora otorrinolaringologista me apresentou com sua prótese.

Ouvido interno, externo, utrículo, cóclea… São tantos nomes e tão pouco conhecidos… Que complexo são nossos sistemas fisiológicos funcionando no mundo microscópico dentro de nossos corpinhos frágeis. É lindo de aprender sobre essas estruturas. Fascina a engenharia de anos de evolução encontrando as melhores formas de seguir existindo e otimizando a vida de acontecer.

Aprendi que o que permite a noção de equilíbrio em nós humanos, capazes de ficarmos eretos com nossas pernas e pés alinhados à coluna vertebral são esses cristais, chamados octólitos, minúsculas partículas de carbonato de cálcio que posicionados dentro de uma bolsa lá bem no fundo de nossos ouvido interno, mais precisamente em estruturas chamadas utrículo e sáculo que funcionam como sensores de gravidade, um no entendimento de movimentos horizontais e o outro vertical.

Não é lindo?

Nosso equilíbrio tem a ver com pequenos cristais lá dentro da nossa cabeça que quando se movem, saem do seus devidos lugares, geram informações erradas de equilíbrio, por isso as sensações fortes de tontura e até mesmo náusea.

Mas a pergunta é: o que desencadeia esse movimento dos cristais? Dizem que uma pancada forte na cabeça, não foi meu caso, ou situações de stress. Eis o ponto! Puxa vida, me tornei essa pessoa que observava com olhos distantes. Sucumbi mais uma vez à clássica neurose de um corpo que clama por pausa.

Nem sei bem ao certo com quais acúmulos de demandas. Será o trabalho materno? O trabalho empreendedor? A frustração de participar de coletivos? Ou a obsessiva tentativa de manter o equilíbrio num mundo desequilibrado? 

Para os que já se cansaram de ler as notícias, insisto: seguimos em guerras, barbárie, violências, desigualdades e truculência. Humanos como éramos há milhares de anos, mas com um toque sofisticado de Inteligência artificial e redes altamente velozes de comunicação. Apesar de crermos na nossa superioridade humana seguimos toscos na resolução de conflitos, na inteligência emocional e na distribuição de recursos. Ainda disputando territórios, brigando por religiões, e mergulhados numa ideia de ultra performance, inatingível. 

Padeço desse mal. Com minha bagagem teórico/crítica, minhas leituras feministas, e meu desejo por mudança, por ainda não me resignar por completo a um mundo frio e insensível aos outros, tento a cada manhã dar o meu melhor. Cuidar, fazer, agir, movimentar. Parece cômico, mais uma vez. Talvez por sermos culpados demais, engajados demais, cansados demais, mas cientes de que algo precisa ser feito, ainda mais quando se tem crianças pequenas em casa, me levanto com esperança de que uma migalha do meu dia possa contribuir em algo nessa engrenagem que faço parte direta ou indiretamente. Sim, ainda acredito em pequenas mudanças e melhorias sociais, ambientais e econômicas para mais gente. Ingênua? Talvez. 

Poeira cósmica num mar de possibilidades. Entendo minha pequenez nesse vasto sistema. Quem deseja demais, também padece em demasia. É preciso saber pausar. Falhar. Criar espaços de reflexão e deslumbramento. Uma performance como nos contam as redes sociais são falsas e inatingíveis. Quanto mais ansiosos, mais cronicamente cansados. Quanto mais multi focados, mais perdidos. Quanto mais engajados, mais desiludidos. 

O caminho do meio, a tentativa de equilíbrio, a paz interior se confundem com a melhor dieta (sem glúten, lactose, carnes vermelhas), muito exercício, terapias integrativas, melhores aplicações e investimentos, organização de armários e dispensas, hobbys, reuniões, viagens, cursos e mais uma lista que a depender de seu grupo social se apresentam quase que infinita. 

Será o mal dos nossos tempos? Tantas opções de séries, cardápios, formas de pagamento, deslocamentos? Concluo que me sinto muitas vezes confusa numa oferta tão grande de informações. Será por isso fiquei tonta?

Escrever sem IA ainda é um exercício de organização mental. Esse texto já leva um mês pra ser concluído por aqui. Entre sonhos um tanto perturbadores, devaneios, experiências e dias sem propósito, ele vai se construindo. Serve exclusivamente para me ajudar a ter clareza do que faço aqui nesse planeta, nesse corpo vivo que habito, no mal estar que me acomete de tempos em tempos.

Respiro profundamente.

Tento rodar num ritmo mais lento e com presença, não sei quanto tempo consigo manter. Facilmente me vejo entrando e saindo do carro correndo, as vezes me batendo em algum móvel da casa. Há algo da minha natureza que tem pressa em chegar, avançar, fazer, concluir. E tá tudo bem, alguns mais apressados, outros mais lentos. Se peço algo no momento é: ter clareza e saúde para manter o prumo no balanço das águas, mansas e principalmente nas agitadas, doses generosas de horizonte e muitas horas de silêncio ruidoso que só o mar nos traz.

 

Comentários (clique para comentar)

Elô Esteves - 24/03/2026 (12:03)

A sabedoria dos cristais indicando que é preciso pegar mais leve! Hehehe. Melhor que isso, só a possibilidade de usar das palavras para contornar os impossíveis.

- 24/03/2026 (10:03)

Impecável!